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domingo, 15 de janeiro de 2012

Minha Copacabana

Esta ligeira crônica foi escrita para aula no curso de pós-graduação em Jornalismo Cultural na UERJ em 19/04/10. Fiz poucas alterações; as principais sendo o título (originalmente era "Copacabana vive") e uma menção a meus hábitos como fumante (em pausa desde 14 de outubro de 2011).



Copacabana nunca morrerá. Ela ostenta as marcas do tempo, como uma senhora de vida bem vivida, em que cores e cavidades do rosto e corpo denunciam um espírito que se recusa a ceder diante das adversidades. Para Rubem Braga, uma Atlântida tropical, um fantasioso museu aquático de tempos babilônios. Tempos?
Toda noite, vou à janela. Acendo um cigarro e me debruço no peitoril, a atmosfera de bicho inquieto me dominando suavemente como as ondas que arrebentam a poucos metros do prédio. Uma engrenagem de máquina não bem azeitada, mas funcional.
Nos prédios vizinhos, algumas luzes acesas servem de palco para siluetas insones, teatro de sombras! Além do mar; perto, carros de polícia, gatos fornicando, "Mengo!", fogos de artifício e músicas variadas enchem meus ouvidos. Cheiros de comida, lixo, queimado e adocicados xampus.
A mente caminha para mais longe. Sabe que, logo abaixo, nas ruas, a vida segue em todas as suas manifestações. Copacabana respira com o apetite de um rebelde.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Papai Noel Rosa



Este texto foi escrito originalmente num bar no Humaitá no dia 22 de dezembro de 2010 para o CEP 20000, cujo tema foi o centenário de Noel Rosa.

Um grande amor tem sempre um triste fim. Com Papai Noel Rosa aconteceu assim. Distribuindo presentes, conheceu esta mulata fuzarqueira; um artigo raro! Foram para o samba, deram rasteira e passaram a noite inteira em claro.
Ano após ano, quando retornava à Vila, suspirava. A estrela da manhã que, quando brilhava na amplidão, o faz lembrar a saudade que guardava no coração. Confessava seu caso de amor para os companheiros, longe da Mamãe Noel Rosa!
O amor cresceu e Papai Noel Rosa só pensava na mulata fuzarqueira. Ela Julieta, ele Romeu. Todo ano, ela perguntava: "Quando vem?" Ele respondia: "Tem amo também." Como se ela fosse mais uma das crianças insistentes, seguia: "Espera mais um ano que eu vou ver. Vou ver o que posso fazer. Não posso resolver nesse momento..."
- Pra quem escreve? - desconfiava Mamãe Noel Rosa.
- Para um cliente que pediu uma viola na última entrega, mas não recebeu, pois não achei o requerimento! - e, suado, completava: (Espera, espera, espera).
Finalmente, numa véspera de Natal, enquanto escolhia com que roupa iria mais tarde para um samba a qual tinha sido convidado, a mulata partiu seu coração. Ele queria discutir, mas ela não queria discussão.
- Da discussão, sai a razão! - argumentou.
- Mas às vezes sai pancada - afirmou decidida.
- A questão é complicada. Quero ver discussão! - implorou.
Mas a mulata já tinha embarcado em outra canoa e andava com um tipo à toa.
Arrasado, pediu para o duende de sua roda realizar as entregas e foi afogar as mágoas no termas. Ficou bêbado e choroso.
- A mulher faz o que quer. Cada qual que cave o seu. Pois o homem já nasceu dando a costela à mulher! - e caía no pranto.
No meio da rua, agarrado à garrafa, o duende o encontrou. Ofereceu o ombro amigo ao colega caído e perguntou:
- Por que bebes tanto assim, rapaz?
- É a mulata...
- Chega, já é demais! Se é por causa de mulher, é bom parar. Porque nenhuma delas sabe amar. Sei que tens em tua vida um enorme sofrimento, mas não penses que a bebida seja medicamento!
Voltaram para a Vila e lá estava Mamãe Noel Rosa. Sentiu o cheiro do esposo e recuou do porre com nojo. Pobre Papai Noel Rosa mal conseguiu articular a defesa:
- Mu... mu... mulher, em mim fi... fizeste um estrago. Eu de nervoso, esto... tou fi... ficando gago!
Apesar de enfurecida, ela o perdoou:
- Por esta vez passa. Por esta vez passa! Mas não volte à minha casa assim cheirando à cachaça!
Quando chegou dezembro de novo, há quase um ano não ia visitá-la no barracão da Penha. Viu o nome da mulata fuzarqueira na lista de boazudas e declarou:
- Nega, nega. Já te dei de tudo. Agora chega!
Papai Noel Rosa, então, partiu, carregando os presentes e a saudade de quem vive sem afago!

Crédito a quem merece: a imagem que ilustra o texto foi retirada do post O centenário de Noel Rosa no site Nada a ver (www.nadaver.com)

sábado, 2 de janeiro de 2010

Diálogo sem vontade, mas alguma representação

Homem e um funcionário de bombonière no caixa. O caixa, aparentemente, aproveitou demais a passagem de ano.

HOMEM
Me vê uma água com gás, por favor?

FUNCIONÁRIO
A água sem gás não tá gelada e a com gás também...

HOMEM
Então, você tá dizendo que não tem nenhuma água gelada. É isso?

FUNCIONÁRIO
Dá para colocar gelo num copo...

HOMEM
Ah... não, obrigado.

Homem sai. Posteriormente, ele atribuiria sua postura impaciente a aborrecimentos pessoais e à leitura inicial de "O mundo como vontade e como representação". Acho que Schopenhauer poderia analisar esta situação como a indefinição do sujeito perante a um objeto ao qual este não dá a mínima. Ou o Homem poderia ter oferecido uma aspirina ao Funcionário. Se houver um Deus, só ele saberá...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Salve-se quem puder 1



A Conferência de Copenhague está indo... Para algum lugar, mas está indo. Apesar de prognósticos mais desastrosos que o filme "2012" (entenda como quiser) e do super-herói midiático Barack Obama, a reunião dos países ricos e influentes (Brasil como emergente, também conhecido como "quase-quase") parece que terá o mesmo melancólico final que o encontro em Kyoto. Considerando o fator de um aumento muito próvavel de 2o. C na temperatura para as próximas décadas, era esperado um atitude um pouco mais pró-ativa e menos especulativa. Para quem mora no Rio de Janeiro, então, resta uma revolta digna da torcida alvi-verde. Então, já que, aparentemente, o Protocolo de Kyoto não sofrerá alterações suficientes para adiarmos o desastre por mais alguns aninhos, alguém precisa tomar uma atitude. Alguém como um jornalista freelancer de 26 anos, que ainda mora com os pais e tem problemas de coluna. Alguém como... EU!


Então, aqui, lhes ofereço, minhas sugestões para enfrentar o aquecimento global de cabeça erguida (para o suor não cair nos seus olhos):

- A Floresta Amazônica e outras matas sofrem há anos com o desmatamento. Um dos principais motivos seria para a plantação de pasto para o gado. Então, quando vamos comer uma bela picanha, estamos, indiretamente, comendo nossa biodiversidade e esperança de que o sol não nos derreta de uma vez por todas! Como poderemos passar vergonha na churrascaria como toda essa culpa? Além do mais, os gases que as vacas soltam, tanto pela boca quanto pelo... bem, você sabe, são elementos que contribuem no acumulo na atmosfera. (acho que se chama gás butano...) O que fazer? Simples! É só seguir três etapas:


Primeiro: eliminação de gases.

Coloque uma rola bem no... você-sabe-o-que da vaca e do boi. Isso deve garantir uns 50% a menos de carbono na nossa sobrecarregada atmosfera. Mas eles ainda vão ficar com a boca aberta... Máscaras! Coloque uma máscara de oxigênio em cada animal (uma máscara como aquela de pilotos de aviões de guerra nos anos 40) e pronto.


Segundo: nossa fauna e flora. Sem flora, não há fauna. E sem fauna, não há animais que podemos matar para comer. No entanto, o gado precisa de pasto, que precisa de terreno onde a flora convenientemente se encontra, para crescer. A solução está nos filmes. Se lembra de "Matrix", quando as máquinas cultivavam humanos para sugar a energia de seus corpos? Isso mesmo. No lugar de queimadas que levam tempo (afinal, o suborno para os funcionários de fronteira de certos governamentais não são feitos da noite para o dia. Isso é a queima de arquivos!),


vamos colocar o gado do mundo inteiro em coma,

alimentá-los através de máquinas (mas vamos evitar o método foie gras, que é crueldade até para mim) e, assim, comermos um belo churrasco sem risco de aumentar a pegada ambiental. E o melhor de tudo é que a carne virá tenra, pois vaca em coma, que eu saiba, não desenvolve músculo!

- Infelizmente, os fenômenos climáticos repercutirão de maneira brutal na vida de algumas pessoas. Fala-se desde fluxões migratórios como, por exemplo, em algumas regiões da África. Também há a possibilidade de o aumento no volume de água no mar, devido ao derretimento da calotas, provocar inundações e ameaçar cidades costeiras (seria uma boa desculpa para finalmente me mudar para São Paulo...). Verdade ou ficção? O tempo dirá. Mas isso não é justificativa para não fazer nada. Logo, como resolvermos dois grandes problemas numa só cajadada? Simples:

Uma enorme redoma de vidro envolvendo as metrópoles!


África Central... Eu lá quero saber de África?!? Eles e outros desfavorecidos no hierarquia global que se lixem! Com as redomas, auxiliadas por um sistema de ventilação, as grandes cidades que tiveram a infelicidade de serem portuárias poderão resistir ao avanço de pragas pré-programadas: os mares e os migrantes! Quem sabe eles até não criem uma comunidade aquática, como em "Waterworld"? Afinal, a limitação de recursos geralmente traz à tona a criatividade do homem.

- O Japão e os EUA são considerados os maiores consumidores do planeta. Também são os grandes desperdiçadores. A quantidade de produtos descartados pelo simples fato de terem 5 anos de uso (uma idade ainda mais cruel do que a canina) é surpreendente e não ajuda o planeta a dar conta corretamente do processo de decomposição. Por outro lado, Japão e EUA são as economias que desfilam no abre-alas. São países ricos, admirados e em que todos vivem em lugares melhores que o meu mesmo sem grana. Na quarta temporada de "Desesperate Housewives", um cego e uma dondoca inútil viviam numa casa de dois andares confortavelmente.... Bom, podemos criticá-los, mas, para estarem indo tão bem na fita, talvez eles estejam fazendo algo certo. Então, vamos seguir seu exemplo!


Vamos jogar esta porcaria de planeta no lixo!


Já está velho... Já tem bilhões de anos de uso, o que deve equivaler a um celular de 7 anos! Além do mais, encontraram água em Marte. Vamos enviar engenheiros da Coca-Cola, colocar todos em naves e é isso! Foda-se a Terra! Que nem em "Wall-e"!


O cinema não é apenas a maior diversão, mas a verdadeira solução! - Roland Emmerich

Joe Strummer estava certo!
Now get this! London's calling...
Quer saber de onde o autor tira inspiração para estas sábias observações? Leia aqui

domingo, 6 de dezembro de 2009

Zenas kariokas 2


Introdução

Pego um táxi. Destino: minha casa (Copacabana) até o shopping Leblon (... Leblon).

Cena 1 – O mistério desinteressante das lésbicas flamenguistas

Espero uma mulher com a camisa do Flamengo sair do táxi. Ela não tem pressa e eu estou com medo de não chegar a tempo de pegar o shopping aberto ou intacto, já que a festa da concentração do Flamengo corria a toda por aquelas bandas. Mal fecho a porta
- Muita falta de vergonha na cara. Essa aí com a camisa do Flamengo. Tava aí com duas amigas, peguei no Baixo Gávea, as duas se pegando, de língua, agora há pouco...
- Ah, que bom... Só quero ir pro Shopping Leblon, por favor.
- Essa e as amigas...
- ... vamos pegar o Corte do Cantagalo...

Cena 2 – Carmageddon

O taxista continua discursando sobre as lésbicas. Eu faço o máximo para parecer desinteressado, mas ele insiste. É um brasileiro, não desiste e não sabe quando está sobrando.
- ... pra mim, pode fazer o que quiser. Beijar, meter na (...), tá pagando, faz o que quiser, tou pouco me (...)
Neste momento, como sempre ocorre nas ruas cariocas e em Copacabana, as pessoas atravessam fora do sinal e com os carros vindo em sua direção. Embebido apenas por sua revolta em nome dos bons costumes e a moral (eu acho), uma mulher baixa, gorda e um tanto desajeitada tenta descobrir a seu modo por que a galinha atravessou a rua. O motorista avança em cima da mulher por alguns segundos, mas o suficiente para espantar não apenas a mulher como a mim mesmo. Poderia ter sido um acidente, mas
- Essa gente atravessando a rua é um absurdo. Tudo bêbado, não vê a rua, causa acidente.
Mais a frente, um homem tenta a mesma façanha.
- Esse aí, outro. Tudo bêbado...
- É, se distrair no trânsito é algo terrível. – casualmente esperando que ele entenda a indireta.
Estou em dúvida até agora se aquelas demonstrações de psicose explícita foram involuntárias por ele estar preocupado com as lésbicas flamenguistas ou algo mais sinistro. Ainda assim, deveria ter saltado. Por que sempre penso no que deve ser feito depois do ato?

Cena 3 – Janela indiscreta

Após mais alguns resmungos, paramos no sinal perto do shopping. Um garoto, sorrateiramente, se aproxima de um carro estacionado, abre a porta e entra.
- Olha só. Esse aí entrou todo estranho no carro. Tá vendo? Se agachando e tudo... O que será que ele tá fazendo?
- Não me interessa.
O sinal abre. À medida em que o carro se aproxima, ele diminui a velocidade:
- Vamos ver o que ele tá fazendo pela janela.
- NÃO!
Ele ri. Não olho, pois temo que o motorista esteja tendo com espuma na boca há esta altura.
- Pois é, né? Melhor a gente cuidar da nossa vida, temos os nossos problemas. Não é nosso carro mesmo, né? Não importa, porque não é carro meu...
- Aqui tá o dinheiro. Boas festas.


Chego na livraria e pego o que tanto aguardava: minha edição brasileira da obra de David Foster Wallace, Breves entrevistas com homens hediondos.

Apropriado, pensei.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Coisas que não suporto 1


Algo me diz que esta será uma série longa...

Sou um carioca por criação. Gosto da cidade. É legal. Mas, como todas as coisas legais, pode ser incrivelmente irritante às vezes. Há momentos em que o Rio de Janeiro, com o providencial auxílio do calor, se assemelha a uma filial do inferno.

Exemplo do dia: ônibus (e estou me referindo apenas à Zona Sul).

- faça chuva, faça sol, os ônibus lotados invariavelmente são quentes, abafados e lentos. Muito lentos. Por que as pessoas não esperam o próximo a chegar (e a Zona Sul é bem abastecida neste aspecto) vai além da minha compreensão.

- vendedores ambulantes, como todos os mortais, precisam ganhar seu ordenado. Eles poderiam estar roubando, estar matando, mas preferiram fazer uma grana honesta. Excelente atitude, eu aplaudo. Devo, inclusive, meu fornecimento de amendoins com casca a eles. Mesmo assim, são um pé no saco. Se você é alguém que está cansado, precisa de um tempo para organizar seus pensamentos ou está preocupado com negócios pendentes, seu estado de instropecção é brutalmente interrompido por:

"BOA TARDE, SENHORAS E SENHORES PASSAGEIROS. DESCULPE ESTAR INCOMODANDO O SILÊNCIO DA SUA VIAGEM..."

Neste instante, o que surge à mente é:

"Desculpa o c@#$%¨&*! Se não quer incomodar o silêncio da viagem, cala a p*&¨%$ da boca, seu filho da p*&¨!"

E fico tão perturbado que só consigo prestar atenção à minha irritação. Exceto quanto meu estoque de amendoins com casca está no fim. Ou se eu quero um chocolate. Ou uma caneta. Quero dizer, se eles tivessem um centro de treinamento, onde pudessem formar um grupo de estudos acadêmicos dedicado a abordar os passageiros sem assustá-los ao mesmo tempo, seria muito bom. Mas talvez esteja sonhando.

- Imagina o seguinte: Você entra no ônibus quando ele ainda não alcançou os pontos de concentração. Há lugares vagos, você pode escolher o seu, parece agradável. Vamos supor mais uma vez que você decida se sentar mais à frente ou no meio. Aí, eles, um bando por vez, entram. Como a praga de gafanhatos, infestam o veículo por todo lado, levando a máxima do coração de mãe para a realidade do transporte público. Seu momento de deixar a lata de sardinhas motorizada se aproxima. Olha para cima. Olha para o lado. Ah, não... Mas é preciso fazê-lo, caso contrário, você não desce. Aí, você se espreme, usa força, os cotovelos, tudo, porque eles não se movem (não conseguem!) e, a cada passo errado, mais riscos de não saltar no local pretendido. Você se esfrega em todas pessoas que pode imaginar, principalmente naquelas em que não se esfregaria em outras circunstâncias. Você chega à traseira do ônibus, puxa a corda e se sente como a Sônia Braga em "A dama do lotação". Só que não há prazer. Nenhum.

- Dirigir por horas a fio deve ser um porre. Manter sua sanidade enquanto executa esta tarefa provavelmente faz do homem um forte. No entanto, nem todos conseguem. Até o momento, dividi os enlouquecidos em três categorias:

Há os "pilotos", aqueles que parecem estar loucos para chegar ao grid do ponto final, correm nas congestionadas e tensas vias como se estivessem em Intergalos e acreditam que Galvão Bueno com prancheta na mão e camisa azul os recepcionará.

Também há os mais "baianos". O dia está lindo, outros ônibus da mesma linha estão fazendo a coleta de passageiros, para que a pressa... e param numa esquina, fazendo hora enquanto você se desespera porque, ao contrário do motorista, tem um compromisso marcado. É uma maldição que parece afetar bastante o 474.

E, finalmente, encontramos os "conversadores". Esta espécie é um primo do vendedor ambulante, mas pior, porque esse, eventualmente, salta. O motorista "conversador" fica com você até o final da sua viagem. O ônibus é barulhento e o cara quer ser ouvido. Então, ele faz mais barulho que o ônibus. Ele grita sobre os mais variados e, geralmente, desinteressantes assuntos para o colega trocador ou algum amigo que pegou em dado momento do trajeto. Quando o sinal fecha e, por um golpe do distante, um camarada motorista para sua colorida condução ao lado da dele, ambos abrem a janela e fazem um coro para os passageiros de ambos os transportes. Às vezes, o trocador também tem um opinião e vira um terceto. Ou o trocador do outro lado igualmente deseja se expressar e temos um quarteto. Poderia ser uma ópera bufa mal escrita se não fosse trágico. E o passageiro, vítima do espétaculo, começa a pensar se deveria pegar o dinheiro do ingresso (valor mínimo de R$ 2,20) de volta...


Posso reclamar bastante, mas gosto de ônibus. Até porque há coisas piores. Como a linha 2 do metrô.

Imagens do horror 1 (referente ao post "Coisas que não suporto 1")

"Abandonai toda esperança, vós que aqui entrais."

Imagens do horror 2 (referente ao post "Coisas que não suporto 1")

"Eu não peço desculpa. E nem peço perdão..."

Imagens do horror 3 (referente ao post "Coisas que não suporto 1")

"É uma sacola que você está carregando ou você só está feliz em me ver?"

Imagens do horror 4 (referente ao post "Coisas que não suporto 1")

"Não tem nenhuma bomba neste ônibus. É que eu preciso usar o banheiro urgente!"

Zenas kariokas 1


Muito bem. Estou no ônibus 570. Sem ar condicionado. Lotado. Do lado de fora, chove. Janelas fechadas. Sem ar condicionado. Abafado. Neste ambiente, os passageiros, sem saída, conversam.


Primeira situação:

Um senhor carregado de sacolas entra, forçando seu caminho até a traseira do ônibus. Parece sem fôlego.
- Abra as janelas. Tudo fechado... vai espalhar HIV...
A garota atrás de mim pergunta para a amiga:
- HIV se pega pelo ar? Não sabia.

Vivendo e aprendendo.

Segunda situação:

Dois amigos, mais à frente no ônibus, batem papo:
- ... sabe aquele com a caveira?
- Édipo?
- Isso! Édipo!

Ser ou não ser? Não ser.

Terceira situação:

Uma mulher de meia idade, usando sandálias (é impressionante a quantidade de pessoas que estão de sandálias na chuva...), pede para saltar e se posiciona na saída. O motorista para e, logo abaixo, uma imensa poça escura encara.
- Moço, pode ir mais pra frente, que aqui tem uma poça enorme?
O motorista atende o pedido e para de novo uns poucos metros adiante. Em frente à porta, um imenso carro preto bloqueia a passagem.
- É, acho que aqui não é melhor não...

Esse comentário foi meu. Mas outra alma espirituosa me ouviu. E fez sua tréplica.
- Vai saltar como? Por cima do carro?

Fingi que não era comigo e fiquei quieto.

Quarta situação:

As garotas atrás de mim (as mesmas sobre a mutação do HIV) notam que a chuva deu uma trégua:
- Gente, parou de chover. Por que não abrem as janelas?
- É. Quer ir pra sauna, vai pro clube.

Eu abri minha janela.
Sou como Groucho Marx nesse sentido, não pertenço a nenhum clube que me aceita como sócio.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Rio de Janeiro, cidade que me seduz


Pego o "Fama e Anonimato", do Gay Talese, a edição da Companhia das Letras. Não o lia desde a Flip 2009. Enfim, abro num trecho onde repousava o marcador, entre as páginas 52 e 53, e isto é o que surge:

... comentam o calor usando a frase habitual: "Que calorão, hein?".
"Que calorão, hein?"
"É mesmo."
"Que calorão, hein?"
"É..."
"Que calorão, hein?"
"Sí."
"An-ham."
"É."
"É."
"É."
E por aí vai, dia após dia em Nova York; as pessoas só têm uma coisa a dizer umas às outras.


Gay Talese, mostrando que sua força ultrapassa o território jornalístico e alcança o sobrenatural, segue com mais provas de seus poderes premonitórios:

Aconteceu uma coisa inesperada às 14h49 (...), numa grande área de Manhattan: faltou luz e, em muitos bairros, a escuridão cobriu tudo, os relógios pararam, a cerveja esquentou, a manteiga amoleceu e as pessoas ficaram conversando agradavelmente à luz de velas em salas sem televisão.

Bom, talvez nem tão agradavelmente, já que soube que a falta de ar condicionado deixou algumas pessoas com os nervos a flor da pele...

Que conclusões tiramos?

Primeira, Gay "Nostradamus" Talese é mesmo uma mente brilhante. Até na alusão à Manhattan (Ipanema e Leblon não seriam a versões cariocas? Os moradores de lá, pelo menos, gostam de pensar assim.), ele acertou.

Segunda, finalmente o carioca pode assumir seu lado cosmopolita. Talese prova que o Rio de Janeiro do século 21 pode ser comparado sem problemas com Nova York... em 1959. Acho que Landsberg vai gostar de saber disso.

* * *

Crédito a quem merece: imagem do blog de Felipe Machado no Estadão (blog.estadao.com.br/blog/media/taleseblog.jpg)

Confissões 2

Tony Soprano não morreu.

Ele está num programa de proteção à testemunha no Grajaú!