sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Crônica: Um calor do caralho!



Um calor do caralho!

 

We can't stop here! This is bat country!
Hunter S. Thompson

O clima esquentou, não há dúvidas. Nas ruas, indiferentes avaliadores de temperatura estampam 50º e há cheiro de sangue. Misturado com urina, pimenta, carne e lágrimas. Wander Wildner esteve no sebo Baratos da Ribeiro e cantou "Um lugar do caralho". Se ele vivesse nesta cidade, adaptaria a letra para "Um calor do caralho!" A menina sentada em uma mesa ao lado da minha no bar define: "Um calor dú ca - ce - tí !" Eu não sei. Fico com caralho mesmo. Afinal, desde o começo de 2014 sinto que estamos todos tomando no cu, metaforicamente falando. Bom, alguns não.
A morte brutal do cinegrafista, atingido por um rojão, encerrou a fase romântica das manifestações. Deu-se início a uma era de prata, cuja perspectiva conserva somente a coloração do metal, e nada de sua preciosidade. As redes sociais, após uma longa convivência pacífica de tofu, se tornaram as arenas de MMA para que foram originalmente planejadas. À distância, os combatentes tiram as luvas e travam um confronto post a poste.
A situação seria engraçada se não fosse tão Kafka de ressaca às 7h da manhã de uma segunda-feira. E, é claro, acordando com este clima que, se não nos matar, nos transformará em mutantes. Prevejo que em breve poderei ler no escuro.
Estou na Casa Porto, um sobrado na Zona Portuária, e uruguaios cantam Cartola. São bons, e o ligeiro sotaque dá ao show um leve toque de experiência antropológica. O ar condicionado do local ajuda a reorganizar as ideias. Isto, e as doses de Heineken e Budweiser, cervejas sem milho. Suponho. O embaralhamento da mente auxilia em uma ordem caótica de paz artificial. Também serve à adjetivação inescrupulosa que é uma beleza.
Estalo os ossos e, em um lugar distante e desencantado, o reino da Central do Brasil, o chicote deve estalar no momento. É um filme velho, com gente correndo em meio a nuvens tóxicas e nervosas. Não acompanho em tempo real à manifestação que ocorre. A mente, travesti violento, me sacode.
As pessoas que estão lá, cuja definição depende da filiação alheia, foram gritar contra os abusos sucessivos do estado. De novo, a definição do estado é feita de acordo com quem você fala. "A gente morre sem querer morrer", canta meu amigo brasileiro de olhos azuis. Mais uma vez, a política invade no quebra quebra, em forma de música de protesto. É impossível viver no Rio de Janeiro de fevereiro de 2014 sem estar emergido em caos político. A máxima de Antônio Conselheiro se tornou realidade.
Ai de nós, admirados de sabiá! As aves que aqui gorjeiam não vandalizam como lá! Temos 10 mortos, "vândalos" de todas as  formas, tamanhos e interesses, uns picadeiros de guerra civil e nenhuma solução. Se sobrevivermos até a copa, será um espetáculo e tanto. Pouco provável que tenha futebol, com exceção do Fla - Flu ideológico.
Os inimigos se multiplicam como marcas de merda de pombo no chão. Depois de fevereiro, nem todos curtirão as postagens do vizinho como antes. Com exceção (esta palavra na moda) se for a respeito deste calor do caralho cacete tenso! Prestes a enrabar. O clima fritou os miolos de todos nós. Chove, porra!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Clube da Leitura: Cidadão de bem

Conto escrito para o evento Clube da Leitura, de 04/02/14, no sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana. A inspiração para o texto foi, em primeiro lugar, a narrativa "Passeio Noturno", de Rubem Fonseca.


Cidadão de bem


Não sei o que estou fazendo aqui. No duro. Não mesmo. Alguém me responde? Não sou vagabundo. Sou empresário, formado em Direito, pós nos Estados Unidos, pago meus impostos e pai de família. Tenho mulher e filhos. Enriqueci com meu esforço e esperteza. Nunca fui um desses acomodados, que deita na grana da família e faz porra nenhuma. Ou desses vândalos criados sem orientação, que sai pras ruas pra vandalizar, quebrar agência bancária, aterrorizar a cidadãos de bem como nós. Meu filho tem uns amigos assim na faculdade; ele me contou. Na minha casa, não entram.
Esses são o perigo. São eles que levam este país para o buraco, a devassidão, o comunismo. Eu sou apenas um executivo que tem um emprego estressante. Centenas de pessoas dependem de mim, dentro e fora da empresa. Sou uma das peças que movimentam a economia deste estado. Sabe onde muitos estariam se não fosse por mim? Desempregados, na rua, na desgraça, na pouca vergonha. É fácil me estampar minha foto no jornal e me chamar de demônio. Quero ver aguentar a pressão. E não de dia, não. É de hora em hora. Porque, sem mim, uma parcela do que permite este estado funcionar vai pro ralo. Ou seja, sem mim, você não recebe sequer seu salário.
Sou como qualquer outro empresário responsável por uma fundação com centenas de empregados. Para relaxar, tenho hobbys. Putas, droga, isto é o básico. Todo mundo faz, não tem problema, não machuca ninguém. Até, inclusive, beneficia, pois pago por serviços e movimento moeda, além de dar dinheiro para pessoas que estão trabalhando. Pode-se até questionar a moralidade de seus trabalhos, mas, cá entre nós, é uma baita hipocrisia. Se a mulher quer dar a boceta ou o cu, o problema é dela. Quanto a financiar o tráfico, não vejo nada demais. Enquanto houver traficante, haverá menos ladrões, porque eles se empregam por lá, e quem sai da linha, é feito de exemplo. Como na minha empresa. Fez merda? Fora!
Mas não é só de gozar e cheirar que um homem na minha posição pode recarregar a energia. A razão por que fazemos parte de 1% privilegiado é que gostamos de desafios. A adrenalina é o que nos torna capazes de tomar decisões duras a cada segundo. Tive vários hobbys. Quando era jovem, costumava sair com uns amigos da faculdade e íamos atrás de mendigos. Não para bater, esclareço. Mas, às vezes, ficavam agressivos e sabe como é que é?, tínhamos que nos defender. Muitas vezes, nos atacavam com querosene e, no meio da confusão, botavam fogo neles mesmos. Vê só que loucura?
Depois que casei e a mulher engravidou, percebi que não podia continuar nestas molecagens. É como meu pai dizia: ter uma criança é a melhor desculpa para parar de agir como uma. Então, sosseguei. Voltei-me para os esportes. Em especial, squash. Jogava com conhecidos do clube. Como o sujeito competitivo que sou, fazia de tudo para marcar mais pontos. Desenvolvi uma técnica, que consistia em bater com o máximo de força o adversário contra a parede. O braço incha, sabe?, então, desequilibra o outro, que perde em mobilidade e agilidade. Fiquei bom nisso. Uma vez, o braço do outro parecia uma beterraba ao fim. Finalmente, um dia, veio este sujeito tomar satisfação. Não gostei do tom e acertei a cara dele com a raquete. Ele reagiu, meus seguranças interferiram, uma confusão dos diabos. Enfim, cansei e resolvi para partir para outra.
Em um almoço de negócios, um conhecido meu me contou de caçadas privadas. Um grupo importava animais e os soltava na mata para serem caçados por empresários ou quem pudesse pagar para participar. Me interessei, comprei um rifle XLF-9, uma beleza de arma, e paguei minha inscrição. Chegamos lá no dia anterior, tomamos café na manhã seguinte, vimos nosso alvo e fomos à caçada. Foi muito bom, vou te contar. A sensação de alerta, de espreitar, sentir o cheiro e a aproximação do alvo, era uma adrenalina só. E era bom. Além de encontrar, muitas vezes eu era o que matava a caça. Voltei várias vezes. O problema é que era muito esporádico. É difícil encontrar alvo com o físico e o treinamento para sobreviver uma caçada. Não é como bater em bêbado. Se fosse, qual seria a graça? Então, eram animais que precisam estar em tal condição que estivessem aptos a correr, até se defender. Geralmente, ex-soldados que o grupo recrutava e soltava na mata para irmos atrás...
Como? Não, não, não caçávamos os soldados. Imagine. Isto seria assassinato. Não sou um assassino. Sou um cidadão de bem, e esta insinuação me ofende. E, olha, mesmo que os animais fossem gente de carne e osso, que caçássemos seres humanos, eles assinaram um contrato, e as famílias recebiam 10% do total, uma soma muito generosa. Mas não afirmo isso, apenas suponho.
Finalmente, precisei me afastar. A empresa passou por uma crise há alguns anos, alguém fez merda na Europa, as ações caíram, precisei vender umas subsidiárias, um inferno. Quando me restabeleci, descobri que o grupo que organizava as caçadas foi preso. Aparentemente, faziam parte de uma milícia, um desses esquadrões de extermínio. Então, acabaram as caçadas.
Nesse meio tempo, tive um enfarte. Fiquei internado, quase morri. O médico mandou eu maneirar um pouco, disse que escapei por pouco, etc. Fique feliz de não ter tido um AVC e não ter ficado babando no canto da boca como um amigo meu. Triste.
Sempre tive paixão por carros e corrida. Quando morei em São Paulo, até frequentei uma pista. Comprei um carrão, com parachoques salientes, o reforço especial duplo de aço cromado, veículo sensacional. Então, resolvi adotar um hobby mais calmo: dirigir à noite. Assim, chego em casa, janto, pego meu carro e dirijo. Num dia mais estressante, dirijo por mais tempo, sem pressa pra voltar. Ás vezes, me esqueço tanto do tempo, e gosto tanto de ouvir o ronco do motor que acelero. Nunca dirigi bêbado ou passei do limite de velocidade. Como disse, sou um cidadão de bem.
Hoje, por exemplo, estava tenso. Amanhã será um dia tenso na firma. Me distrai na direção e atingi aquela senhora. Sinto mal que tenha perdido as pernas, mas não foi minha culpa. Quanto aos outros atropelamentos que ocorrem nesta região, nada sei. O modelo do carro de cujas fotos me mostraram é parecido com o meu, sim. Mas não é, eu garanto. Além do mais, se eu saísse à noite para atropelar pedestres, não seria descoberto. Tenho pós nos Estados Unidos, sou empresário de uma firma responsável por centenas de pessoas. E, mais importante, sou um cidadão de bem. Logo, quanto vocês querem para me liberar aqui e a gente evitar a encheção de saco de um processo que não dará em nada? Mas falem logo, que amanhã terei um dia terrível na companhia.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Relato pessoal do despreparo de 190, 192 e da pm



No sábado à noite, dia 04/01/14, parei para beber em um bar na rua Barata Ribeiro, perto da esquina com a rua.Mascarenhas de Morais.
Estava tranquilo, sozinho no meu canto, imerso em mim mesmo.
Pouco depois, apareceu uma mulher de 20 - 30 anos no bar, transtornada. Gritava, chorava, muito estranho. Não parecia machucada. No começo, achei que estivesse gritando com alguém dentro do bar, como um ex-namorado, algo assim. Não era. Era uma mulher cega, andando sozinha na rua, muito agitada e agressiva. Gritava, agarrava clientes nas mesas, num desespero só.
Algumas pessoas riram do bizarro da situação, mas encarava a situação com misto de pena e preocupação. Algo estava errado.
Após ela agredir um pessoal sentado numa mesa, o segurança do bar a levou até o lado de fora, sentou-a num banco ao meu lado, e ficou conversando com ela. A mulher continuava chorando, dizendo que só queria uma cerveja, algo assim. Sua voz era aguda e a entonação era péssima, tornando partes de sua fala incompreensíveis. O segurança trouxe uma lata. Ela insistia em uma garrafa e queria ir para dentro do bar, o que o segurança não deixou.
Aí, eu tento conversar com ela. Tento aconselhá-la a ir para casa, que ela não me parecia bem, mas ela é muito hostil.
Sem querer, acho que devo tê-la deixado ainda mais agitada, pois ela se levanta e caminha em direção ao bar. Ela tenta entrar de novo, o segurança intervém e a conduz de volta à cadeira. Em seguida, ela se levanta. Ainda grita, entra no bar, agarra um cliente lá dentro, cai no chão, quebra uma mesa.
Enquanto um grupo tenta levantá-la, ligo para 190. Aparentemente ninguém tinha ligado antes.
Fico na linha por pelo menos 20 minutos.
Enquanto isso, a mulher gritava, agarrando o que encontrasse pela frente. Pegou em uma menina de forma violenta, quase derrubando da cadeira. Ainda fico na espera, ouvindo "Danúbio Azul", intercalado por uma voz eletrônica que afirmava que minha ligação era muito importante. Não contei quantas vezes ouvi, mas foram várias.
Finalmente, alguém me atende. Descrevo a situação, mas como nada ainda tinha acontecido que pudesse resultar em ocorrência, escutei que não podiam enviar uma viatura, apesar de a 12a. DP estar a duas ruas de distância. Discuto com a atendente sobre a necessidade de alguém levar a mulher cega e transtornada de volta para casa. A pessoa do outro lado da linha repetia “Senhor, está me escutando?”, mas a impressão é que eu que não era escutado. Repeti diversas vezes o que ocorria, com a atendente inclusive reconhecendo que escutava os gritos da mulher, mas por nada adiantou. “Alguma coisa grave vai ter que ocorrer para vocês finalmente decidirem enviar alguém, é isso?”, perguntei, em um misto de angústia e amargor. A atendente fala para eu ligar para o 192 e desliga na minha cara, sem me dar a chance de falar mais nada.
Ligo para 192, que me diz para ligar para 190. Disse que já tinha ligado, e que eles tinham pedido para ligar para 192.. Descrevi de novo a situação, endereço, tudo. Nesse meio tempo, a mulher vai embora, sozinha. Ninguém a acompanha. Enquanto fico na linha, observo de longe a mulher cega. Ela ainda está agitada.
Quando noto que ela vai seguir a esmo, começo a segui-la de perto. Faço uma nova abordagem, sugerindo que pegasse um táxi, mas ela me empurra e diz que quer beber em outro lugar.
A atendente do 192 ouve a mulher cega gritando na rua e diz que não pode enviar uma ambulância, porque a mulher está em movimento. Ela sugere que eu contenha a mulher até a chegada de um carro. “Em quanto tempo chegaria este carro?” Nenhuma resposta. Falo: "Eu tenho 1m65 e 70kg. Como vou conter sozinho uma pessoa de 1m73 e mais de 80kg?"
Ela atravessa a rua República do Peru, e segura a grade de um prédio, gritando e chorando. Um grupo de pessoas vem na direção oposta e encontra a mulher. Estou no outro lado rua, observando. Atravesso. Falo para um homem de camisa branca e uma mulher de camisa preta do grupo que estou com 192 na linha e conto rapidamente o que houve. Uma outra mulher mais velha, que estava perto de mim no bar, me seguiu e se juntou ao grupo.
192, nada.
Finalmente, uma viatura do PM aparece por acidente (não por terem sido acionados). A mulher mais velha do bar e a menina do grupo com que conversava param o carro e falam com os pms.
192 pede para falar com os pms, mas eles me ignoram. Eles me solicitam informações, que repasso.
Depois, soube por uma outra menina do grupo e a mulher do bar que me seguiu que os pms foram bastante hostis e que chegaram a sugerir que o grupo estava comentendo desacato, e sendo agressivo com os pms. A impressão é que eles não queriam nada com a cega ou conosco. A impressão de seu tratamento conosco e com a situação foi a pior possível, oscilando entre a arrogância brutal da “autoridade” e o descaso.
Finalmente, duas meninas do grupo falam para os pms que uma conhece alguém na corregedoria e outra, que tinha conhecimento legais, afirmou que abriria inquérito por omissão de socorro. Elas anotaram o número da viatura e dos pms. Enquanto isso, uma terceira menina do grupo conversava à distância com a cega. Vendo que a situação estava além do meu controle agora, voltei para o bar e paguei a conta. Após pagar, voltei para o local para ver se estava tudo realmente encaminhado.
A esta altura, todos tinham se deslocado para a outra esquina, a rua Paula Freitas. Um pm anotava numa prancheta e falam que eu comecei a confusão toda. Falam entre si e são muito hostis comigo, mas como o grupo que cruzou com a menina ainda estava por lá, só ficam me dando indiretas, pois todos eram testemunhas do que ocorreu. Pelo menos, acho que foi por isso que não mexeram diretamente comigo. Só grosseiras.
Fiquei conversando com um cara do grupo e as duas meninas, explicando com mais detalhes qual era o meu papel nesta história toda.
Ao nosso lado, de repente, desmaia uma mulher que estava em outro grupo no bar que fechava na esquina da Paula Freitas, provavelmente por beber demais.
O grupo que cruzou com a menina cega se dividiu entre ficar com a menina cega e prestar socorro a garota que desmaiou, junto com os amigos dela. O clima é tenso. Um policial faz um comentário jocoso quanto à garota no chão, o que provoca ainda mais nervosismo em uma das meninas do grupo. A viatura leva a jovem inconsciente para o Samu.
Um pm fica, anotando depoimentos e afirmando para o grupo que a culpa era minha. O cara e a menina de camisa preta estavam comigo antes da viatura aparecer. E a menina de camisa preta com a amiga tiveram que apelar para que os pms fizessem o trabalho deles, por conta de uma conhecer alguém na corregedoria e outra ter conhecimentos sobre direito e anunciar para os pms que eles seriam enquadrados por omissão de socorro.
Enquanto isso, uma mulher, que disseram ser a mãe da cega apareceu Ela estava com o pm que ficou e as mulheres, Alguém do grupo, acho que a menina com conhecimentos de direito, me contou a mãe deve levá-la para casa e fico mais aliviado. Com a cega encaminhada e aquele pm me encarando com raiva e me dando indiretas, falo com o cara do grupo que é melhor eu ir embora, e ele concorda.
Volto para o bar onde estava quando tudo começou e converso com a mulher mais velha, que abordou os pms junto com o grupo.
Enquanto relato o que ocorreu, reapareceu a cega, agora calma e segurando o braço da menina de camisa preta. Ela faz um gesto pedindo silêncio e diz que vai levar a cega em casa.
Tudo isto aconteceu na mesma região onde há 4 dias um tiroteio envolvendo uma abordagem da pm à uma briga de casal culminou em tiroteio e 19 feridos.

domingo, 30 de setembro de 2012

O futuro segundo o delegado e o urso

Eu não vi o filme “Ted” ainda, mas posso afirmar que já ri com ele. Indiretamente, pelo menos. Para os desatualizados, nesta terça-feira, 25 de setembro, o deputado Protógenes Queiroz afirmou que pedirá aos Ministérios da Justiça e da Cultura que suspendam a exibição de “Ted”. O filme trata da amizade entre um sujeito sem rumo e seu ursinho de pelúcia, que não apenas fala como possui toda uma miríade de vícios humanos: bebe, fuma, usa drogas e é tarado. A classificação etária é 16 anos, mas Queiroz levou seu filho de 11 anos para assistir ao filme sob a alegação de que o menino é um pré-adolescente. A indignação do político não é de que o filme seria inapropriado para menores de idade, mas para todos. “Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas", comentou em reportagem ao “Estado de S. Paulo”. É quase como a versão bufa da polêmica no ano passado envolvendo o infame “Um filme sérvio” e o grupo liderado por Cesar Maia, candidato a vereador nestas eleições. Ao contrário dos políticos cariocas, dou a Queiroz ao menos crédito de ter visto o filme antes de criticá-lo. Sobram piadas e críticas a Queiroz nas redes sociais. Muito provavelmente a bilheteria do filme será maior devido ao novo público de curiosos que irá ao cinema. E, mais ainda, atrairá apenas fumaça e nenhum fogo. Trata-se de um bom exemplo de opereta da era virtual: é uma encenação despretensiosa, cujo intuito final é distrair o espectador com certa leveza, sem oferecer algo mais substancial, realizado em um palco invisível e em movimento constante, em que o jornalismo divide igual espaço e importância com imagens de gatos e fotos de refeições. Depois de rir com o ridículo da situação, um pensamento me veio. Uma rápida busca na internet me relembrou. O deputado que hoje se preocupa com os efeitos corruptores de um filme sobre um urso de pelúcia maconheiro foi ontem considerado um herói e um mártir nacional. Antes de ser tornar político, ele foi o delegado federal responsável pela Operação Satiagraha, que levou à prisão do banqueiro Daniel Dantas por corrupção ativa. Após ser preso, Dantas foi liberado para ser preso mais uma vez por tentar subornar um delegado da Polícia Federal. Foi liberado no dia seguinte. Queiroz foi demitido da PF e condenado pela Justiça em 2010 por "vazar informações" e "forjar provas". A pena de 4 anos foi convertida em prestação de serviços à comunidade. Com tudo isto, fiquei pensando no efeito do tempo nas pessoas e percepções. O próprio “Ted” tem este assunto em sua premissa. O homem e seu urso de pelúcia viciados e preguiçosos vivem numa adolescência perpétua. Apesar de estarem com idade adulta, não amadureceram e tem dificuldades em encarar a nova realidade de suas vidas, o que origina o comportamento que tanto horrorizou o deputado. Já Queiroz, como diz a expressão, perdeu uma boa oportunidade para ficar calado. Após seu papel de destaque como o “delegado que pegou o corrupto e pagou o preço”, Queiroz sumiu da vida pública para retornar como uma piada de bar, no estilo do humor do filme que critica. Ouvi a música “The future” de Leonard Cohen enquanto escrevia este texto e fiquei pensando em seu profético verso “When they said REPENT REPENT I wonder what they meant” e o associei aos personagens desta farsa midiática. Seja através do entorpecimento ou lutando contra moinhos de vento que posam de gigantes, o tempo pode ser devastador com aqueles que brilharam no passado. O garotinho com o brinquedo especial e o policial herói são personagens da mesma tragicomédia. Aqueles que a todo custo se agarram àquele resquício de esperança e bem-estar, conscientes da ilusão que criaram, mas incapazes de aceitar sua nova condição. Todos nós precisamos nos adaptar às atuais etapas de nossas existências para não sermos esmagados pelo peso. O peso do fracasso, da culpa, do deslocamento. Todas estas sensações nos arrastam à medida que nossa compreensão sobre o que nos cerca some. A vida passa, e passa por cima. É preciso estar ciente que apenas ao se arrepender, ao se desculpar por tudo o que deu errado e seguir adiante, entendemos o que a vida estava tentando dizer. Não adianta viver no passado. Os tempos mudaram. É necessário preservar nossos valores, mas isto não é desculpa para não entender o contexto da nova realidade. Porque o futuro, meu irmão, em qualquer caso, é a morte. O resto é bom senso. Em tempo: No dia seguinte, o deputado voltou atrás devido a repercussão da história. Ele agora pretende pedir para que a classificação etária seja alterada de 16 para 18 anos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Minha Copacabana

Esta ligeira crônica foi escrita para aula no curso de pós-graduação em Jornalismo Cultural na UERJ em 19/04/10. Fiz poucas alterações; as principais sendo o título (originalmente era "Copacabana vive") e uma menção a meus hábitos como fumante (em pausa desde 14 de outubro de 2011).



Copacabana nunca morrerá. Ela ostenta as marcas do tempo, como uma senhora de vida bem vivida, em que cores e cavidades do rosto e corpo denunciam um espírito que se recusa a ceder diante das adversidades. Para Rubem Braga, uma Atlântida tropical, um fantasioso museu aquático de tempos babilônios. Tempos?
Toda noite, vou à janela. Acendo um cigarro e me debruço no peitoril, a atmosfera de bicho inquieto me dominando suavemente como as ondas que arrebentam a poucos metros do prédio. Uma engrenagem de máquina não bem azeitada, mas funcional.
Nos prédios vizinhos, algumas luzes acesas servem de palco para siluetas insones, teatro de sombras! Além do mar; perto, carros de polícia, gatos fornicando, "Mengo!", fogos de artifício e músicas variadas enchem meus ouvidos. Cheiros de comida, lixo, queimado e adocicados xampus.
A mente caminha para mais longe. Sabe que, logo abaixo, nas ruas, a vida segue em todas as suas manifestações. Copacabana respira com o apetite de um rebelde.

sábado, 5 de novembro de 2011

Crime e pães



Texto escrito para o evento "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Visite o blog do "Clube da Leitura". É só clicar no nome.

Era uma fria, fria noite de outubro e o operário de fábrica Fyodor Kapek voltava para casa exausto. Havia esperado por mais de uma hora na fila para conseguir dois pães mofados e duas batatas. A rua Arbat estava sem luz devido a outra queda de energia e a neve castigava seus calcanhares e rosto.O ano era 1983 e o local, Moscou, a capital da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A vida não estava sendo fácil para a outrora próspera potência mundial. Problemas sérios de infra-estrutura, desde a produção de alimentos ao declínio da indústria estatal, combinados com a crescente rebelião de grupos insurgentes, levavam o país ao colapso.
Não que Fyodor se importasse com isso. Tudo o que ele queria era publicar seus diários e se tornar um escritor famoso. Queria honrar a memória de seu pai, Nikita, que carregava consigo o livro de sua vida. Por alguma razão, o conteúdo da obra de seu progenitor estava em branco, mas Fyodor não via isso como sinal de fracasso, mas sim de uma abjeção completa pela arte. Seu pai nunca poderia ser um autor de uma história perfeita quando sua vida estava longe disso. Embora o filho não fosse tão radical, reconhecia que a rotina tinha seu próprios meios para sugar a vontade criativa.
No caso de Fyodor, isso se manifestava na forma de sua esposa, Whadia Ingratovich. Eles se casaram por amor, mas ficaram juntos para manter o apartamento luxuoso de duas salas médias e um quarto pequeno. Todas as noites, ele abria a garrafa de vodka com estramônio e permanecia horas em cima de seu caderno. Pela manhã, via o resultado de seus esforços em desenhos de genitálias e numa caricatura de Whadia morta em diversas maneiras. Ainda assim, mantinha a esperança de um dia escrever alguma coisa.
Nesta noite, a vida de Fyodor tomaria um novo rumo.
Após chegar em casa, cumprimentou a esposa. Whadia assistia a um show de variedades na televisão, "Revolucionário dia de trabalho do camarada Fausto", e respondeu mostrando o dedo do meio. Fyodor exibiu, triunfante, as compras.
- Só isso?
- Minha cerejeira, o rublo tá pela hora da morte! Do jeito que essa economia anda, só com uma reconstrução!
- Você sabe o que o Anatoli Nosecu traz para a casa, para aquela "dama do cachorrinho" que é a mulher dele? Quatro pães novos, incluindo um brioche, que nem existe ainda neste sistema planificado e nacionalista.
- Mas ele é um burocrata!
- Eu quero um brioche até amanhã ou a coisa vai ficar realmente vermelha pra você, camarada.
Pensou, mas não encontrou alternativas. Seu tio ganhava um bom dinheiro se prostituindo vestido de mulher, o que gerou o apelido jocoso "Tio Vanya". Será que seria este o seu fim, levar mais ainda atrás da cortina de ferro? Imaginou a si mesmo fantasiado de Anna Karenina quando lembrou do ponto dos travestis, a praça com o monumento a Boris Grushenko. Sabia que Anatoli passava por lá na volta do trabalho. Era um ponto deserto e as bonecas russas não poderiam dizer nada... Foi quando a virtude sumiu da alma de Fyodor. Ainda refletia sobre a moralidade do assassinato quando percebeu que apertava com força o pescoço de alguém.
O corpo caiu rápido na neve. Fyodor tinha acabado de tirar uma vida humana com suas mãos. Sua culpa exalava de seu interior e o sofrimento daquele ser viria a ser acumulado em si mesmo. Notou os belos pensamentos e concluiu: "Por Lênin, eu preciso escrever isso antes que me esqueça." Foi na busca desesperada por uma caneta que terminou preso. Sua mania de falar enquanto escrevia causou sua queda. Em particular, o trecho: "Acabei de matar Anatoli por um símbolo da cultura capitalista em formato de massa."
Condenado por homicídio e pelo brioche, esperava a data de sua execução em um frenesi literário. Ninguém o visitou, mas Fyodor não se importava. Finalmente, era senhor de seu destino. A morte daquele homem o desprendeu de seus pudores, libertando sua veia criativa. Escreveu suas memórias do subsolo, duas narrativas fantásticas sobre um jogador e o idiota, humilhados e ofendidos em noites brancas que encontram seus respectivos crime e castigo através de três irmãos e seu crocodilo.
Era o dia de seu fuzilamento. Apenas uma frase o separava do fim de sua obra. Aí, olhou para um estranho em sua cela. Surpreso, perguntou quem era. O visitante respondeu que era o diabo. Fyodor se assustou, mas o demônio o tranquilizou, informando que sempre gostava de conhecer novos inquilinos antes de mudarem para seu espaço. Como cortesia pela preferência, concedeu um desejo a Fyodor. "Quero a frase ideal para terminar este livro!" O diabo aceitou e disse que, no momento certo, antes de morrer, a frase perfeita, aquela com que seu pai sonhara para iniciar seu livro, surgiria. Antes de o diabo partir, perguntou como era o inferno. "É como estar de volta a União Soviética. E leve um saco de vômito que a viagem é horrível" e sumiu numa nuvem de enxofre.
Fyodor estava encostado no muro. Em suas mãos, uma caneta e um papel, seu último pedido. O pelotão estava posicionado. O comandante contava os segundos. A frase não surgia. "Vamos lá!", pedia o condenado. "Preparar", ordenou o militar. "Cadê a frase?", se desesperava Fyodor. Quando veio a ordem para "apontar", finalmente, a recompensa apareceu em sua mente: "Se o cara nasce mané, cresce mané, morre mané, mané!"
"Dá pra esperar só um minutin..."
"Fogo!"
Fyodor morreu instantaneamente, sem tempo de ver sua obra incompleta ser aproveitada como comida para porcos.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Um conto chinês




Um conto chinês (Un cuento chino, 2011) é um caso que ilustra perfeitamente o quão incômodo pode ser o chamado meio-termo. Não tem nada de errado nesta simpática produção, exceto o fato de ser plenamente descartável. O espectador desejoso por uma distração de 90 minutos sairá satisfeito. No entanto, resta a sensação de que o potencial dessa história poderia ser maior se os realizadores tivessem mais ousadia. Alguns elementos, como o cuidado da produção de arte e a escalação do ator principal, intensificam um defeito cuja origem não está em seu resultado final, mas no que ele suscita a partir da utilização desses elementos.
A história de Um conto chinês é simples e direta. Um dono de uma loja de ferragens ranzinza e solitário, Roberto (Ricardo Darín), tem sua rotina balançada com o surgimento de dois visitantes. O primeiro, Jun (Ignacio Huang), um chinês perdido e sem conhecimento de espanhol que, por uma série de circunstâncias, é abrigado por Roberto. A segunda é uma paixão antiga, Mari (Muriel Santa Ana). Estes dois terão um papel importante em fazer com que o protagonista se abra para o mundo, a vida e o amor.
O fato de ter Ricardo Darín, um dos atores argentinos mais talentosos e reconhecidos internacionalmente, como protagonista, enfatiza uma antecipação por algo a mais que não surge. Darín está bem no papel e parece se divertir interpretando o rabugento Roberto. Fora esta "alegria de performance", não há nada no texto que distancie o personagem de um arquetípico Scrooge. Para usar um metáfora futebolística, a presença de Ricardo Darín é neste filme como Ronaldinho Gaúcho jogando em um time de pequena categoria e muita pompa. Evidente que ele fará um bom serviço, mas a percepção de desperdício é tremenda.
Os outros atores fazem um bom trabalho. Huang alterna entre o desespero e o servil enquanto Santa Ana é encantadora, cumprindo cada um, a sua maneira, a tarefa designada: atormentar o acomodado protagonista. No caso, um simboliza o elemento estranho, aquele fator inesperado que pode mudar sua existência como a tal vaca que cai do céu. Ele aponta para a impossibilidade de permanecer parado no tempo, com sua urgência e, principalmente, a barreira de comunicação. Ela é a esperança, a recompensa que pode o estar aguardando se for esperto o bastante para entender o significado do chinês. E, como elemento que serve como sinal de movimentação, a vaca holandesa.
Um conto chinês não é um filme ruim ou um desperdício de tempo. É um desperdício de talento e potencial narrativo. É uma história que foi contada sem arroubos de novidade, mas que, para seu crédito, é feita de forma competente. No entanto, às vezes, ser satisfatório não basta. É preciso ousadia para criar algo novo e não ser como um velho acomodado e repisa constantemente as mesmas manias. É a lição que Um conto chinês deveria ter aprendido com seu protagonista.

Escrito para o site "Almanaque Virtual" em 08/09/11