domingo, 30 de setembro de 2012
O futuro segundo o delegado e o urso
Eu não vi o filme “Ted” ainda, mas posso afirmar que já ri com ele. Indiretamente, pelo menos.
Para os desatualizados, nesta terça-feira, 25 de setembro, o deputado Protógenes Queiroz afirmou que pedirá aos Ministérios da Justiça e da Cultura que suspendam a exibição de “Ted”. O filme trata da amizade entre um sujeito sem rumo e seu ursinho de pelúcia, que não apenas fala como possui toda uma miríade de vícios humanos: bebe, fuma, usa drogas e é tarado. A classificação etária é 16 anos, mas Queiroz levou seu filho de 11 anos para assistir ao filme sob a alegação de que o menino é um pré-adolescente.
A indignação do político não é de que o filme seria inapropriado para menores de idade, mas para todos. “Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas", comentou em reportagem ao “Estado de S. Paulo”. É quase como a versão bufa da polêmica no ano passado envolvendo o infame “Um filme sérvio” e o grupo liderado por Cesar Maia, candidato a vereador nestas eleições. Ao contrário dos políticos cariocas, dou a Queiroz ao menos crédito de ter visto o filme antes de criticá-lo.
Sobram piadas e críticas a Queiroz nas redes sociais. Muito provavelmente a bilheteria do filme será maior devido ao novo público de curiosos que irá ao cinema. E, mais ainda, atrairá apenas fumaça e nenhum fogo. Trata-se de um bom exemplo de opereta da era virtual: é uma encenação despretensiosa, cujo intuito final é distrair o espectador com certa leveza, sem oferecer algo mais substancial, realizado em um palco invisível e em movimento constante, em que o jornalismo divide igual espaço e importância com imagens de gatos e fotos de refeições.
Depois de rir com o ridículo da situação, um pensamento me veio. Uma rápida busca na internet me relembrou. O deputado que hoje se preocupa com os efeitos corruptores de um filme sobre um urso de pelúcia maconheiro foi ontem considerado um herói e um mártir nacional. Antes de ser tornar político, ele foi o delegado federal responsável pela Operação Satiagraha, que levou à prisão do banqueiro Daniel Dantas por corrupção ativa. Após ser preso, Dantas foi liberado para ser preso mais uma vez por tentar subornar um delegado da Polícia Federal. Foi liberado no dia seguinte. Queiroz foi demitido da PF e condenado pela Justiça em 2010 por "vazar informações" e "forjar provas". A pena de 4 anos foi convertida em prestação de serviços à comunidade.
Com tudo isto, fiquei pensando no efeito do tempo nas pessoas e percepções. O próprio “Ted” tem este assunto em sua premissa. O homem e seu urso de pelúcia viciados e preguiçosos vivem numa adolescência perpétua. Apesar de estarem com idade adulta, não amadureceram e tem dificuldades em encarar a nova realidade de suas vidas, o que origina o comportamento que tanto horrorizou o deputado. Já Queiroz, como diz a expressão, perdeu uma boa oportunidade para ficar calado. Após seu papel de destaque como o “delegado que pegou o corrupto e pagou o preço”, Queiroz sumiu da vida pública para retornar como uma piada de bar, no estilo do humor do filme que critica.
Ouvi a música “The future” de Leonard Cohen enquanto escrevia este texto e fiquei pensando em seu profético verso “When they said REPENT REPENT I wonder what they meant” e o associei aos personagens desta farsa midiática. Seja através do entorpecimento ou lutando contra moinhos de vento que posam de gigantes, o tempo pode ser devastador com aqueles que brilharam no passado. O garotinho com o brinquedo especial e o policial herói são personagens da mesma tragicomédia. Aqueles que a todo custo se agarram àquele resquício de esperança e bem-estar, conscientes da ilusão que criaram, mas incapazes de aceitar sua nova condição.
Todos nós precisamos nos adaptar às atuais etapas de nossas existências para não sermos esmagados pelo peso. O peso do fracasso, da culpa, do deslocamento. Todas estas sensações nos arrastam à medida que nossa compreensão sobre o que nos cerca some. A vida passa, e passa por cima. É preciso estar ciente que apenas ao se arrepender, ao se desculpar por tudo o que deu errado e seguir adiante, entendemos o que a vida estava tentando dizer. Não adianta viver no passado. Os tempos mudaram. É necessário preservar nossos valores, mas isto não é desculpa para não entender o contexto da nova realidade. Porque o futuro, meu irmão, em qualquer caso, é a morte. O resto é bom senso.
Em tempo: No dia seguinte, o deputado voltou atrás devido a repercussão da história. Ele agora pretende pedir para que a classificação etária seja alterada de 16 para 18 anos.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Minha Copacabana
Esta ligeira crônica foi escrita para aula no curso de pós-graduação em Jornalismo Cultural na UERJ em 19/04/10. Fiz poucas alterações; as principais sendo o título (originalmente era "Copacabana vive") e uma menção a meus hábitos como fumante (em pausa desde 14 de outubro de 2011).

Copacabana nunca morrerá. Ela ostenta as marcas do tempo, como uma senhora de vida bem vivida, em que cores e cavidades do rosto e corpo denunciam um espírito que se recusa a ceder diante das adversidades. Para Rubem Braga, uma Atlântida tropical, um fantasioso museu aquático de tempos babilônios. Tempos?
Toda noite, vou à janela. Acendo um cigarro e me debruço no peitoril, a atmosfera de bicho inquieto me dominando suavemente como as ondas que arrebentam a poucos metros do prédio. Uma engrenagem de máquina não bem azeitada, mas funcional.
Nos prédios vizinhos, algumas luzes acesas servem de palco para siluetas insones, teatro de sombras! Além do mar; perto, carros de polícia, gatos fornicando, "Mengo!", fogos de artifício e músicas variadas enchem meus ouvidos. Cheiros de comida, lixo, queimado e adocicados xampus.
A mente caminha para mais longe. Sabe que, logo abaixo, nas ruas, a vida segue em todas as suas manifestações. Copacabana respira com o apetite de um rebelde.

Copacabana nunca morrerá. Ela ostenta as marcas do tempo, como uma senhora de vida bem vivida, em que cores e cavidades do rosto e corpo denunciam um espírito que se recusa a ceder diante das adversidades. Para Rubem Braga, uma Atlântida tropical, um fantasioso museu aquático de tempos babilônios. Tempos?
Toda noite, vou à janela. Acendo um cigarro e me debruço no peitoril, a atmosfera de bicho inquieto me dominando suavemente como as ondas que arrebentam a poucos metros do prédio. Uma engrenagem de máquina não bem azeitada, mas funcional.
Nos prédios vizinhos, algumas luzes acesas servem de palco para siluetas insones, teatro de sombras! Além do mar; perto, carros de polícia, gatos fornicando, "Mengo!", fogos de artifício e músicas variadas enchem meus ouvidos. Cheiros de comida, lixo, queimado e adocicados xampus.
A mente caminha para mais longe. Sabe que, logo abaixo, nas ruas, a vida segue em todas as suas manifestações. Copacabana respira com o apetite de um rebelde.
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sábado, 5 de novembro de 2011
Crime e pães
Texto escrito para o evento "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Visite o blog do "Clube da Leitura". É só clicar no nome.
Era uma fria, fria noite de outubro e o operário de fábrica Fyodor Kapek voltava para casa exausto. Havia esperado por mais de uma hora na fila para conseguir dois pães mofados e duas batatas. A rua Arbat estava sem luz devido a outra queda de energia e a neve castigava seus calcanhares e rosto.O ano era 1983 e o local, Moscou, a capital da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A vida não estava sendo fácil para a outrora próspera potência mundial. Problemas sérios de infra-estrutura, desde a produção de alimentos ao declínio da indústria estatal, combinados com a crescente rebelião de grupos insurgentes, levavam o país ao colapso.
Não que Fyodor se importasse com isso. Tudo o que ele queria era publicar seus diários e se tornar um escritor famoso. Queria honrar a memória de seu pai, Nikita, que carregava consigo o livro de sua vida. Por alguma razão, o conteúdo da obra de seu progenitor estava em branco, mas Fyodor não via isso como sinal de fracasso, mas sim de uma abjeção completa pela arte. Seu pai nunca poderia ser um autor de uma história perfeita quando sua vida estava longe disso. Embora o filho não fosse tão radical, reconhecia que a rotina tinha seu próprios meios para sugar a vontade criativa.
No caso de Fyodor, isso se manifestava na forma de sua esposa, Whadia Ingratovich. Eles se casaram por amor, mas ficaram juntos para manter o apartamento luxuoso de duas salas médias e um quarto pequeno. Todas as noites, ele abria a garrafa de vodka com estramônio e permanecia horas em cima de seu caderno. Pela manhã, via o resultado de seus esforços em desenhos de genitálias e numa caricatura de Whadia morta em diversas maneiras. Ainda assim, mantinha a esperança de um dia escrever alguma coisa.
Nesta noite, a vida de Fyodor tomaria um novo rumo.
Após chegar em casa, cumprimentou a esposa. Whadia assistia a um show de variedades na televisão, "Revolucionário dia de trabalho do camarada Fausto", e respondeu mostrando o dedo do meio. Fyodor exibiu, triunfante, as compras.
- Só isso?
- Minha cerejeira, o rublo tá pela hora da morte! Do jeito que essa economia anda, só com uma reconstrução!
- Você sabe o que o Anatoli Nosecu traz para a casa, para aquela "dama do cachorrinho" que é a mulher dele? Quatro pães novos, incluindo um brioche, que nem existe ainda neste sistema planificado e nacionalista.
- Mas ele é um burocrata!
- Eu quero um brioche até amanhã ou a coisa vai ficar realmente vermelha pra você, camarada.
Pensou, mas não encontrou alternativas. Seu tio ganhava um bom dinheiro se prostituindo vestido de mulher, o que gerou o apelido jocoso "Tio Vanya". Será que seria este o seu fim, levar mais ainda atrás da cortina de ferro? Imaginou a si mesmo fantasiado de Anna Karenina quando lembrou do ponto dos travestis, a praça com o monumento a Boris Grushenko. Sabia que Anatoli passava por lá na volta do trabalho. Era um ponto deserto e as bonecas russas não poderiam dizer nada... Foi quando a virtude sumiu da alma de Fyodor. Ainda refletia sobre a moralidade do assassinato quando percebeu que apertava com força o pescoço de alguém.
O corpo caiu rápido na neve. Fyodor tinha acabado de tirar uma vida humana com suas mãos. Sua culpa exalava de seu interior e o sofrimento daquele ser viria a ser acumulado em si mesmo. Notou os belos pensamentos e concluiu: "Por Lênin, eu preciso escrever isso antes que me esqueça." Foi na busca desesperada por uma caneta que terminou preso. Sua mania de falar enquanto escrevia causou sua queda. Em particular, o trecho: "Acabei de matar Anatoli por um símbolo da cultura capitalista em formato de massa."
Condenado por homicídio e pelo brioche, esperava a data de sua execução em um frenesi literário. Ninguém o visitou, mas Fyodor não se importava. Finalmente, era senhor de seu destino. A morte daquele homem o desprendeu de seus pudores, libertando sua veia criativa. Escreveu suas memórias do subsolo, duas narrativas fantásticas sobre um jogador e o idiota, humilhados e ofendidos em noites brancas que encontram seus respectivos crime e castigo através de três irmãos e seu crocodilo.
Era o dia de seu fuzilamento. Apenas uma frase o separava do fim de sua obra. Aí, olhou para um estranho em sua cela. Surpreso, perguntou quem era. O visitante respondeu que era o diabo. Fyodor se assustou, mas o demônio o tranquilizou, informando que sempre gostava de conhecer novos inquilinos antes de mudarem para seu espaço. Como cortesia pela preferência, concedeu um desejo a Fyodor. "Quero a frase ideal para terminar este livro!" O diabo aceitou e disse que, no momento certo, antes de morrer, a frase perfeita, aquela com que seu pai sonhara para iniciar seu livro, surgiria. Antes de o diabo partir, perguntou como era o inferno. "É como estar de volta a União Soviética. E leve um saco de vômito que a viagem é horrível" e sumiu numa nuvem de enxofre.
Fyodor estava encostado no muro. Em suas mãos, uma caneta e um papel, seu último pedido. O pelotão estava posicionado. O comandante contava os segundos. A frase não surgia. "Vamos lá!", pedia o condenado. "Preparar", ordenou o militar. "Cadê a frase?", se desesperava Fyodor. Quando veio a ordem para "apontar", finalmente, a recompensa apareceu em sua mente: "Se o cara nasce mané, cresce mané, morre mané, mané!"
"Dá pra esperar só um minutin..."
"Fogo!"
Fyodor morreu instantaneamente, sem tempo de ver sua obra incompleta ser aproveitada como comida para porcos.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Um conto chinês

Um conto chinês (Un cuento chino, 2011) é um caso que ilustra perfeitamente o quão incômodo pode ser o chamado meio-termo. Não tem nada de errado nesta simpática produção, exceto o fato de ser plenamente descartável. O espectador desejoso por uma distração de 90 minutos sairá satisfeito. No entanto, resta a sensação de que o potencial dessa história poderia ser maior se os realizadores tivessem mais ousadia. Alguns elementos, como o cuidado da produção de arte e a escalação do ator principal, intensificam um defeito cuja origem não está em seu resultado final, mas no que ele suscita a partir da utilização desses elementos.
A história de Um conto chinês é simples e direta. Um dono de uma loja de ferragens ranzinza e solitário, Roberto (Ricardo Darín), tem sua rotina balançada com o surgimento de dois visitantes. O primeiro, Jun (Ignacio Huang), um chinês perdido e sem conhecimento de espanhol que, por uma série de circunstâncias, é abrigado por Roberto. A segunda é uma paixão antiga, Mari (Muriel Santa Ana). Estes dois terão um papel importante em fazer com que o protagonista se abra para o mundo, a vida e o amor.
O fato de ter Ricardo Darín, um dos atores argentinos mais talentosos e reconhecidos internacionalmente, como protagonista, enfatiza uma antecipação por algo a mais que não surge. Darín está bem no papel e parece se divertir interpretando o rabugento Roberto. Fora esta "alegria de performance", não há nada no texto que distancie o personagem de um arquetípico Scrooge. Para usar um metáfora futebolística, a presença de Ricardo Darín é neste filme como Ronaldinho Gaúcho jogando em um time de pequena categoria e muita pompa. Evidente que ele fará um bom serviço, mas a percepção de desperdício é tremenda.
Os outros atores fazem um bom trabalho. Huang alterna entre o desespero e o servil enquanto Santa Ana é encantadora, cumprindo cada um, a sua maneira, a tarefa designada: atormentar o acomodado protagonista. No caso, um simboliza o elemento estranho, aquele fator inesperado que pode mudar sua existência como a tal vaca que cai do céu. Ele aponta para a impossibilidade de permanecer parado no tempo, com sua urgência e, principalmente, a barreira de comunicação. Ela é a esperança, a recompensa que pode o estar aguardando se for esperto o bastante para entender o significado do chinês. E, como elemento que serve como sinal de movimentação, a vaca holandesa.
Um conto chinês não é um filme ruim ou um desperdício de tempo. É um desperdício de talento e potencial narrativo. É uma história que foi contada sem arroubos de novidade, mas que, para seu crédito, é feita de forma competente. No entanto, às vezes, ser satisfatório não basta. É preciso ousadia para criar algo novo e não ser como um velho acomodado e repisa constantemente as mesmas manias. É a lição que Um conto chinês deveria ter aprendido com seu protagonista.
Escrito para o site "Almanaque Virtual" em 08/09/11
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Qual é o livro que mais lhe marcou? Antônio Xerxenesky
Esta é uma série em que faço uma pergunta a escritores e outros personagens da trama editorial. Se ainda não percebeu qual é, então, o que você quer que eu faça?
Na edição de hoje, o autor Antônio Xerxenesky. A entrevista foi feita em áudio e a transcrição preservou ao máximo a instantaneidade da fala.
Acho que foi "O arco íris da gravidade" do Thomas Pynchon, porque, a primeira vez que eu o li, eu não entendi quase nada. E eu tou relendo ele. Eu releio ele com uma frequência e continuo nunca entendendo tudo e acho que vou continuar relendo e nunca vou entender todas as mil coisas que tem ali, porque é meio um livro maior que o mundo. Marcou muito por isso, porque esse é um livro que tenta abranger todo o universo e fracassa. E meio que nada nesse fracasso.
DRR: O que fracassa nele?
Fracassa, porque qualquer livro com essa pretensão de totalidade, que, no caso, tenta dar conta da Segunda Guerra; enfim, do fim da Segunda Guerra Mundial; e ele tenta com mil linguagens diferentes. Tem linguagem de desenho animado, linguagem pastelão, tem linguagem científica, tem fórmulas matemáticas no meio. Ele tenta pegar o mundo de todos os pontos de vista diferentes para tentar atribuir algum sentido, mesmo sabendo que vai ser impossível, que, ainda assim, ele continua absurdo. Quanto mais investiga, mais absurdo aparece.
O Autor:
Antônio Xerxenesky nasceu em 1984. É escritor e co-fundador da Não Editora. Publicou a convenientemente esgotada coletânea de contos "Entre", a novela "Areia nos dentes" (Não Editora/ Rocco) e a uma nova reunião de pequenas histórias, "A página assombrada por fantasmas" (Rocco). Também pode ser lido nas antologias "Ficção de Polpa Vol. 1", "Ficção de Polpa Vol. 2", "Ficção de Polpa Vol. 3" e "24 letras por segundos", todos pela Não Editora. É um dos editores da revista virtual "Cadernos de não-ficção".
Links:
Em O Arco-íris da Gravidade, Thomas Pynchon compõe uma ousada "narrativa enciclopédica", com 400 personagens e tramas paralelas
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Valeu, Vicente: um relato pessoal do evento "Homenagem ao querido Vicente"
Ontem eu fui ao Empório.
Para aqueles que eventualmente desconheçam a Zona Sul carioca, trata-se de um bar em Ipanema. Reduto notório de jovens, turistas e criaturas da noite, é conhecido pelo som (rock n'roll) e como porto seguro para os boêmios de plantão (eu). Entre as diversas figuras que estiveram ou ainda surgem por lá, uma resumia em si toda a essência do local. Vicente. Por 22 anos, ele trabalhou como garçom do Empório e se tornou um "embaixador" do lugar. Ele era o Empório em qualidades e defeitos (Quem nunca recebeu seus "avisos" de que não pode entrar com lata de cerveja no estabelecimento ou que é proibido fumar dentro do bar?). Ele morreu na terça-feira, dia 09 de agosto de 2011. Dois dias depois, foi organizada uma homenagem a ele na sua "casa".
Uma amiga, Tábata, teve a ideia e a colocou na rede social. O que, nas palavras dela, seria um encontro entre poucos amigos se transformou numa convocação informal. Chegou a ponto de ela dar uma entrevista para "O Globo" e de receber reclamações de moradores, temendo a movimentação prometida. Deviam ter pensando ser uma espécie de versão carioca para as manifestações londrinas e chilenas, especulo. Pouco mais de 2.500 pessoas confirmaram presença. Duvido que vieram todos. Mas estava bem cheio. Dentro e fora do Empório e estendendo até o bar na outra ponta do quarteirão, o que tinha era gente vinda para a "Homenagem ao querido Vicente". Estacionados na esquina próxima ao bar, a Guarda Municipal tomou posição para acertar a passagem dos carros na rua lotada por pessoas que iam e vinham, cerveja numa mão e cigarro na outra.
Para uma ocasião marcada por uma égide trágica, foi bem descontraído. Lembrava o Empório como ficou marcado em nós: cheio, boa música e amigos aparecendo a cada instante. Era mais o Empório que gostamos de recordar do que aquele que realmente foi. Comentando com Tábata hoje, concordamos que Vicente teria aprovado. Até os reconhecidos pontos negativos estiveram presentes, como a quase total incapacidade de se mover dentro do lugar, a fila do banheiro e o preço do chopp. No entanto, me dando ao direito de ser piegas, senti falta do famoso grito de "Olha o chope!" sempre que Vicente saia do balcão para servir uma mesa. Foi aí que me bateu a certeza de que, como mencionou Bob Dylan numa canção, "Things have changed".
Conversando com alguns dos vários conhecidos em que esbarrei nesta noite, chegamos a conclusão de que o Empório tem duas fases na sua vida: aquela em que as pessoas vão para o Empório e a posterior, em que você aparece no lugar. Explico: a primeira é quando a ida ao estabelecimento é programada. Você combina com os amigos de se encontrar no Empório e a noite gira a partir daí. A segunda é quando, após os bares de rua fecharem, a busca por alternativas de lugares abertos termina por levar ao Empório. Quando você chega a esta fase, é porque não é mais adolescente. Quando começamos a ir ao bar, estávamos entrando na faculdade e não tínhamos maior preocupação do que o CR. Agora voltamos como seres lutando por um quinhão no latifúndio conhecido como mercado de trabalho, com contas e responsabilidades a galope. Definitivamente, não sou o garoto de 20 anos de 2003, ano que marca minha associação com o lugar.
Apesar de, nos últimos anos, somente aparecer de forma ocasional, ainda gosto de lá. Entre porres, tocos e infinitas saideiras, o Empório me parecia um porto seguro justamente por sua atmosfera familiar. E atribuo a isso à presença do Vicente. Até no visual, ele parecia ser o único de nós não afetado pelo tempo. Mantinha a mesma barba generosa e atitude. Gostava de programas culturais e música rock. Sei do primeiro por relatos e experiência. Toda vez que o via, conversávamos sobre filmes, ainda mais depois que me tornei crítico de cinema. Em seguida, pegava com ele um chopp e ia fumar no lado de fora. Quanto ao segundo, há uma gravação no Youtube de um show do Gogol Bordello, em que Eugene Hütz faz um cover de "I wanna be your dog" do Iggy Pop. A participação de Vicente é pequena, porém emblemática.
Como ícone de um passado recente, o falecimento de Vicente deixa uma sensação amarga. Se não para o mundo, sua morte, para mim, separa de forma explícita quem eu fui e o que sou agora. As coisas mudaram. Faço, então, minha despedida usual, quando deixava o copo vazio no balcão e encerrava o dia.
"Valeu, Vicente."
Links:
Eugene Hütz canta "I wanna be your dog"
Morre Vicente, garçom-ícone da cena alternativa carioca, e frequentadores programam homenagem
Foto do evento "Homenagem ao querido Vicente" tirada por... mim.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Clube da Leitura: Peito
Texto escrito para o evento "Clube da Leitura" no sebo Baratos da Ribeiro, em Copacabana (19/07/11). Visite o blog do "Clube da Leitura". É só clicar no nome.
Tentava pensar em uma ideia para o desafio do dia seguinte: escrever um conto inspirado em uma crônica lida há duas semanas. O mote era uma relato breve em que um acadêmico paulistano comparava o movimento politicamente correto com a transformação do protagonista de “A metamorfose” em um inseto. No caso, como a opção por aceitar passivamente as circunstâncias e nada fazer a respeito pode ser visto por algumas pessoas como uma espécie de felicidade. Ou seja, ignorar o estranho e escolher uma adaptação hipócrita seria a melhor maneira de adequação à sociedade.
Estava num ônibus. Voltava para casa após um longo dia de trabalho. Queria tomar um banho quente e fechar a segunda-feira. A linha era o 308, anteriormente conhecido como 175. Por que mudaram o número, eu não sei, pois o trajeto continuava o mesmo. O que também permanecia era o característico fedor de cecê impregnado pelo veículo como uma lembrança de como as pessoas preferem se manter quietas perante o absurdo a assumir uma postura controvertida e solitária. Puxa, que cheiro terrível; não podia ser o único incomodado.
Entre o cansaço e o odor, nada me vinha à mente. Nada, além das preocupações habituais com desemprego, contas atrasadas e indecisão geral quanto à vida. Então, elas entraram.
Duas garotas, provavelmente retornando ao lar após um dia de trabalho. Poderiam ser estagiárias de uma firma na Barra, quem sabe? Sabia que eram de estatura mediana e muito magras. Jovens, sem dúvidas. Bonitas, num jeito peculiar, também. Achava graça em notar como suas cabeças pareciam grandes demais para aqueles corpos miúdos. Ainda assim, seus rostos cansados e oleosos mostravam uma beleza tímida e nova, típica da garota que lhe conquista com um sorriso e um jeito agradável de ser. Foi aí que percebi outra coisa.
Como todo homem solteiro, olhar de forma discreta não é um crime. Eu olho, tu olhas, ele/ela olha, nós olhamos, eles olham (ninguém mais usa a segunda pessoa do plural “vós”). E o que olhei era que uma delas não tinha bunda. Era realmente sem curvas o trecho de trás da calça abaixo da cintura. Levantei meus olhos e notei que seu decote tampouco era generoso e o de sua amiga também. Ambos eram desprovidos de quaisquer contornos entre o plexo e o pescoço. Logo, não era um vestígio rotineiro de luxúria que conduzia meus pensamentos, mas como as mulheres que haviam feito parte de minha vida se relacionavam com seus corpos.
Independentemente do tipo de relação, todas sempre mencionam um defeito que enxergavam como aberrante. Em geral, esses “erros de nascimento” se concentravam nas partes extremas dos terços que dividem o corpo: pés, bunda e seios. Uma mencionava que tinha o segundo dedo pé muito comprido em relação aos outros e outras que calçavam tamanhos que seriam mais apropriados para um homem. Quanto à parte traseira, surpreendentemente só conseguia me lembrar de uma única queixa: não ter parte traseira substancial. Se o adjetivo deveria ser entendido como algo que mostrasse curvas ou “bumbum de passista”, me falha o entendimento.
Já os seios eram a área mais crítica. As reclamações variavam: muito pequenos, muito grandes, tamanhos desiguais, caídos, … Elas estavam convencidas de que um homem não poderia deixar de olhar para esses defeitos de maneira imediata. Talvez seja minha ingenuidade, mas realmente nunca prestei atenção em nada disso até elas me chamarem a atenção. E, mesmo assim, eu não dava a mínima. Uma ex-namorada perguntava se deveria fazer uma operação plástica. Quando me lembro, acredito que ela esperava que reafirmasse suas suspeitas e abençoasse o sagrado bisturi. Seu olhar questionava minha sinceridade. Assim, repetia a pergunta mais de vez, me encarando na esperança de notar qualquer alteração. Tudo o que queria dizer era que não me apaixonei por uma parte de seu corpo. Quem gosta de pedaços de carne é açougueiro. Desejava que vissem que achar uma pessoa linda não se tratava de imagens, mas de uma experiência sensorial. É preciso tocar algo além da pele.
Embora divague, o ponto que gostaria que ficasse claro é: Homens não se importam tanto como uma mulher aparenta se estão envolvidos emocionalmente. Parece mentira, mas não é. Toda conversa que tenho a respeito de mulheres, após passarmos do cumprimento “é gostosa”, falamos sobre fatores alheios ao visual, como: ela é legal? o que fazem juntos? ela gosta disso, não gosta daquilo? Pelo menos, é assim nos papos em que participei. Há possibilidade de estar sendo ingênuo, mas se elas percebessem que estar com alguém em que podemos nos sentir à vontade, nos sentir com alguém que nos compreende, é o que os homens querem, haveria menos neurose sobre um aspecto que considero trivial. Se homens começam perseguindo a carne, eles ficam pela segurança. Logo, é mais importante ter peito que ser peituda.
Posso soar hipócrita defendendo uma questão mais espiritual que física quando foi justamente a última que me levou a estas reflexões e lembranças. Mas o fato é que isso seria o melhor que conseguiria. Como abordar alguém que você não conhece num ônibus? Não é como num pátio de escola na primeira série quando éramos crianças e tudo surgia sem uma névoa de segundas intenções e desconfianças mútuas. Se pudesse ter uma chance num terreno neutro, como uma celebração, poderia introduzir um assunto. Enquanto isso não ocorre, queria que soubessem o quão bonitas são e que nada ou ninguém poderia tirar isso delas, exceto elas mesmas.
Afinal, o que os homens querem não é um buraco, nem uma paixão alucinada. Tudo isso é bom, não entenda errado. Mas, ao final das contas, o que todos querem é encostar a cabeça no ombro de uma pessoa querida após um dia cansativa e ouvir aquilo que nos mantém seguindo em frente: “Meu amor, eu acredito em você.” Pois estas palavras provam que ainda teremos fôlego para lutar contra a passividade que nos transforma em insetos, seres indiferentes sem motivação para valer sua identidade. O que nos evita de sermos baratas felizes e morrer é o fato de que há alguém ao seu lado e para manter essa pessoa, você precisa ter peito.
Obs: A imagem foi colhida por Ágata Sousa no site PostSecret.
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